Crise hipertensiva: quando é urgência e quando é emergência
Resposta curta: chama-se crise hipertensiva a uma subida da tensão arterial até valores de grau 3 — 180 mmHg ou mais na máxima, 110 mmHg ou mais na mínima, bastando um dos dois. A gravidade, porém, não se decide pelo número. Decide-se pela existência de sinais de um órgão a ser lesado naquele momento: havendo dor no peito, falta de ar, fala arrastada, falta de força num lado do corpo ou visão que muda de repente, trata-se de uma emergência hipertensiva e liga-se 112. Sem nenhum desses sinais, o valor continua a obrigar a avaliação rápida — mas é outra situação, com outro caminho, e não se resolve por iniciativa própria.
Dois documentos em vigor em Portugal sustentam esta página: a Norma n.º 001/2026, que a Direção-Geral da Saúde publicou a 4 de março de 2026, e a secção 7 das Recomendações de Bolso da SPC — a versão que a Sociedade Portuguesa de Cardiologia fez das recomendações europeias. Cada valor tem a fonte ao lado.
O que é uma crise hipertensiva?
Crise hipertensiva é o nome genérico dado a uma subida da tensão arterial até valores de grau 3, o escalão mais alto da graduação europeia publicada em português pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Na Tabela 5 das Recomendações de Bolso da SPC, o grau 3 corresponde a uma sistólica igual ou superior a 180 mmHg e/ou uma diastólica igual ou superior a 110 mmHg.
Repare no «e/ou»: basta um dos dois números atingir o limiar. Uma leitura de 185/95 mmHg é grau 3 tal como 175/115 mmHg, embora nenhuma delas tenha os dois valores altos.
O termo «crise» não é, contudo, uma categoria de decisão clínica. Os documentos portugueses trabalham com duas situações distintas — urgência hipertensiva e emergência hipertensiva —, e é essa separação que determina se a pessoa vai para o serviço de urgência, se é avaliada no próprio dia ou se marca consulta.
Urgência ou emergência hipertensiva: qual é a diferença?
A diferença é a lesão aguda de órgão. Emergência hipertensiva é tensão muito elevada com disfunção aguda de um órgão-alvo a decorrer; urgência hipertensiva é tensão igualmente elevada sem evidência clínica dessa lesão.
| Urgência hipertensiva | Emergência hipertensiva | |
|---|---|---|
| Valores | grau 3, geralmente ≥180 e/ou ≥110 mmHg | ≥180/110 mmHg (Norma DGS 001/2026) |
| Lesão aguda de órgão | sem evidência clínica | presente e a decorrer |
| Sintomas | pode não haver nenhum | habitualmente sintomática |
| Onde se resolve | avaliação rápida; internamento raro | serviço de urgência hospitalar |
| Como se baixa a tensão | medicação oral, segundo algoritmo clínico | terapêutica intravenosa, monitorizada |
| Seguimento | avaliação em ambulatório com urgência | vigilância hospitalar e alvos definidos |
Fontes: Norma DGS 001/2026 (definição e referenciação) e secção 7 das Recomendações de Bolso da SPC (apresentações típicas e conduta).
A norma portuguesa é explícita quanto ao destino: quem está em emergência hipertensiva deve ser referenciado para um serviço de urgência hospitalar geral ou polivalente, onde fica sob vigilância, é tratado e onde se fixam as metas de descida da tensão.
Nas urgências hipertensivas, as recomendações da SPC descrevem outro cenário: são doentes que chegam ao serviço de urgência com tensão grave e sem lesão aguda de órgão, que precisam de baixar a tensão mas raramente de ficar internados, e cuja prioridade é uma reavaliação em ambulatório para garantir que a tensão fica controlada.
E os 180/120 mmHg que se lêem por todo o lado?
Esse limiar vem das recomendações norte-americanas e não é o que vigora em Portugal. Grande parte do conteúdo em língua portuguesa sobre este tema é brasileiro ou traduzido do inglês, e traz o valor da American Heart Association consigo. A norma portuguesa de 2026 fixa a emergência hipertensiva em ≥180/110 mmHg na presença de disfunção aguda de um órgão-alvo, alinhada com o grau 3 europeu.
| Grau | Sistólica | Diastólica | |
|---|---|---|---|
| Normal alta | 130-139 mmHg | e/ou | 85-89 mmHg |
| Hipertensão grau 1 | 140-159 mmHg | e/ou | 90-99 mmHg |
| Hipertensão grau 2 | 160-179 mmHg | e/ou | 100-109 mmHg |
| Hipertensão grau 3 | ≥180 mmHg | e/ou | ≥110 mmHg |
Fonte: Tabela 5 das Recomendações de Bolso da SPC, versão portuguesa das recomendações europeias.
Na prática, a diferença de dez milímetros importa pouco para quem tem sintomas de alarme — esses ditam a chamada para o 112 seja qual for a tabela. Importa para quem tem 180/112 mmHg e nenhum sintoma e vai encontrar na internet a informação de que «ainda não chegou ao limite». Em Portugal, chegou.
São as manifestações de um órgão a sofrer dano no momento. A Norma DGS 001/2026 descreve-os como disfunção aguda de órgão-alvo mediada pela hipertensão, habitualmente sintomática. Com tensão muito elevada e qualquer um destes quadros, o passo seguinte é o 112:
- dor no peito que não alivia, ou dor que irradia para o braço, para o pescoço ou para as costas
- falta de ar em repouso ou ao deitar
- cefaleia de início súbito e intensidade fora do habitual
- alterações da visão que surgem de repente — visão turva, dupla ou perdida
- perda de força ou dormência num braço, numa perna ou num lado da cara
- fala arrastada, dificuldade em encontrar palavras ou confusão nova
- convulsão, vómitos repetidos ou perda de consciência
Estes sinais valem por si. Se aparecerem, não há motivo para repetir a medição, procurar o valor «certo» ou esperar para ver se acalma — a decisão já está tomada pelos sintomas, não pelo aparelho.
As apresentações clínicas que a secção 7 das Recomendações de Bolso da SPC enumera como emergências dão a medida do que está em causa: hipertensão maligna, disseção aguda da aorta, isquemia aguda do miocárdio, insuficiência cardíaca aguda, hipertensão súbita e grave por feocromocitoma e hipertensão grave ou pré-eclâmpsia na gravidez.
Valor muito alto e nenhum sinal de alarme: o que fazer
Primeiro, confirmar que o número é real. Uma leitura isolada não é diagnóstico — a folha informativa para doentes publicada pela Unidade Local de Saúde do Alto Ave (Ministério da Saúde) lembra que a tensão de um adulto oscila com o esforço físico e com o stress sem que isso queira dizer doença, e que o rótulo de hipertenso só se aplica a quem tem valores elevados em três avaliações seriadas, no mínimo.
O procedimento oficial de medição da Norma DGS 001/2026 resolve boa parte dos sustos:
- Repouso. Cinco minutos sentado, num sítio calmo, antes de medir.
- Nada de estimulantes. Sem café nem tabaco nos 30 minutos anteriores; esvaziar a bexiga, se necessário.
- Posição. Sentado, dorso encostado, pernas descruzadas e apoiadas no chão, braço apoiado à altura do coração, sem roupa a apertar.
- Três leituras. Com 1 a 2 minutos de intervalo, e mais medições se a diferença entre elas ultrapassar 10 mmHg; o valor a considerar é a média das duas últimas.
Tamanho correto da braçadeira, verificação de aparelhos validados e restante procedimento: está tudo reunido na página sobre a medição feita com método.
Se o valor confirmado for ≥180/100 mmHg mesmo sem qualquer sintoma, há uma regra própria na norma: esse valor tem de ser reconfirmado com novas leituras dentro da mesma avaliação clínica, afastando-se aí a hipótese de emergência hipertensiva. Isto é tarefa de um profissional de saúde no próprio dia — contacto com o centro de saúde ou com a Linha SNS 24 (808 24 24 24) —, e não mais três medições feitas em casa.
Abaixo desse patamar, a norma trabalha com dois prazos. Quando o valor cai no intervalo 160-180/100-110 mmHg, a reavaliação faz-se em menos de 1 mês. Nas restantes suspeitas de tensão elevada que não se confirmam logo, o limite é de 3 meses.
O que não fazer numa subida de tensão
Quatro reações comuns que não ajudam, e uma delas pode prejudicar.
Medir sem parar. Cada leitura feita em sobressalto mede também o sobressalto. Uma sequência de números a subir no ecrã do aparelho não é informação clínica nova — é ansiedade a alimentar-se a si própria.
Medicação por conta própria. Nem um comprimido que sobrou de outra pessoa, nem uma dose extra da própria prescrição. Nas urgências hipertensivas, a redução faz-se com medicação oral escolhida segundo o algoritmo de tratamento — decisão clínica, tomada depois de excluída a lesão de órgão. As classes disponíveis em Portugal estão descritas uma a uma em que fármacos se usam na hipertensão.
Nifedipina debaixo da língua. Está contraindicada, e não é uma opinião deste site: a DGS escreve-o na Informação n.º 009/2014, Anexo 13, sobre urgência e emergência hipertensivas. A citação é esta: «a utilização de nifedipina sublingual leva a uma descida de PA não previsível nem controlável, pelo que está contraindicada». O motivo está na própria frase — o valor cai, mas ninguém controla quanto nem quão depressa.
Captopril debaixo da língua. O mesmo documento não o recomenda por via sublingual, e acrescenta uma segunda regra que costuma ser ignorada: a dose de captopril não deve ser repetida em menos de duas horas. O texto sugere ainda que pode ser preferível recorrer a um medicamento de outro grupo farmacológico e, quando se justifique, a um sedativo — decisões que pertencem a quem avalia a pessoa, não a quem está em pânico com o aparelho na mão.
Nem a Norma DGS 001/2026 nem as Recomendações de Bolso da SPC preveem qualquer fármaco sublingual tomado em casa. O que descrevem é medicação oral em avaliação clínica, na urgência hipertensiva, ou fármacos intravenosos em meio hospitalar, na emergência.
Normalização à força. A mesma Informação n.º 009/2014 responde a isto numa linha: «Não há vantagem na descida rápida da PA, esta até pode ser prejudicial». Na urgência hipertensiva, ou seja, sem lesão aguda de órgão, o documento descreve uma redução gradual ao longo de 24 a 48 horas, com terapêutica oral e vigilância em ambulatório.
Repare em como se baixa a tensão numa emergência a sério: mesmo com fármacos intravenosos e monitorização contínua, o objetivo nas primeiras horas da hipertensão maligna é reduzir a pressão arterial média em cerca de 20-25 % — e não pô-la em 120/80 mmHg naquela tarde. É justamente por a descida ter de ser travada que este trabalho se faz no hospital.
Sal, peso, álcool, exercício, adesão à medicação: o que fazer entre crises está reunido em baixar a tensão no dia a dia.
São medidas de fundo, não de emergência.
112, Linha SNS 24 ou consulta: como decidir
A escolha depende da combinação entre o valor e os sinais, não do valor sozinho. A tabela resume as regras que constam dos dois documentos consultados.
| Situação | Para onde | Quando |
|---|---|---|
| Valores muito altos com dor no peito, falta de ar, défice neurológico ou alteração súbita da visão | 112 / serviço de urgência | imediato |
| Grávida com tensão grave, cefaleia, alterações da visão ou dor abdominal | 112 / urgência obstétrica | imediato |
| ≥180/100 mmHg confirmado, sem sintomas | contacto com serviço de saúde ou Linha SNS 24 — 808 24 24 24 | no próprio dia |
| 160-180/100-110 mmHg, sem sintomas | consulta médica | menos de 1 mês |
| Suspeita de tensão elevada sem confirmação possível | consulta médica | menos de 3 meses |
A Linha SNS 24 atende no 808 24 24 24 e é o ponto de contacto telefónico do Serviço Nacional de Saúde para dúvidas urgentes que não são emergências — a mesma estrutura cuja aplicação digital a norma recomenda para registar as medições feitas em casa. Para emergências mantém-se o 112.
O que acontece no hospital numa emergência hipertensiva
Procura-se o órgão lesado antes de se baixar a tensão. A Tabela 25 das Recomendações de Bolso da SPC lista o que se faz a todos os doentes com suspeita de crise: observação do fundo do olho, electrocardiograma de 12 derivações, hemoglobina, plaquetas e fibrinogénio, creatinina, taxa de filtração glomerular, eletrólitos, desidrogenase láctica e haptoglobina, relação albumina-creatinina na urina e teste de gravidez nas mulheres em idade fértil.
Conforme a suspeita, acrescentam-se exames dirigidos: troponina e NT-proBNP se houver dor torácica ou insuficiência cardíaca, radiografia do tórax, ecocardiografia, angio-TC do tórax e abdómen na suspeita de doença aórtica aguda, TC ou ressonância ao cérebro quando há envolvimento neurológico, ecografia renal e rastreio de drogas na urina.
Só depois se define o alvo, e esse alvo muda com o diagnóstico:
- Hipertensão maligna: reduzir a pressão arterial média 20-25 % ao longo de várias horas.
- Encefalopatia hipertensiva: redução imediata da pressão arterial média em cerca de 20-25 %.
- Evento coronário agudo ou edema agudo do pulmão: sistólica abaixo de 140 mmHg de imediato.
- Disseção aguda da aorta: sistólica abaixo de 120 mmHg e frequência cardíaca abaixo de 60 batimentos por minuto, de imediato.
- Eclâmpsia e pré-eclâmpsia grave: sistólica abaixo de 160 mmHg e diastólica abaixo de 105 mmHg.
Nenhum destes alvos é 120/80 mmHg. É essa a resposta técnica para quem pergunta se pode «cortar» uma crise em casa: nem no hospital se procura o valor ideal naquele momento.
Uma subida por ansiedade ou por dor é uma crise hipertensiva?
É uma tensão alta naquele momento, e isso não é a mesma coisa que crise hipertensiva. Nas pesquisas em português aparece muito o termo «pseudocrise», usado sobretudo na literatura brasileira para descrever valores elevados desencadeados por dor, ansiedade ou pânico, que cedem quando a causa é tratada. Os documentos portugueses não usam essa palavra: trabalham com urgência e emergência, e a pergunta que fazem é sempre a mesma — há lesão aguda de órgão?
O que os documentos portugueses dizem é suficiente para orientar. A informação ao doente do SNS afirma que a tensão varia com o esforço físico e com o stress sem que isso signifique hipertensão. A norma manda medir depois de cinco minutos de repouso e sem estimulantes na meia hora anterior. Uma leitura feita a seguir a subir escadas, no meio de uma discussão ou em pleno ataque de pânico não está a medir a doença — está a medir o momento.
Isto não autoriza a ignorar o número. Autoriza a repeti-lo com método, e a levar o registo a quem o pode interpretar. Se as subidas são frequentes, o assunto deixa de ser a crise e passa a ser o controlo da tensão. Os sintomas que as pessoas associam a estas subidas estão detalhados em sintomas de tensão alta.
Crise hipertensiva na gravidez
Na gravidez, os limiares descem e as regras são outras. O valor que dá o diagnóstico é o mesmo dos restantes adultos — ≥140/90 mmHg em consulta —, mas a graduação muda: ligeira entre 140-159/90-109 mmHg e grave a partir de ≥160/110 mmHg, segundo a secção 8 das Recomendações de Bolso da SPC.
O internamento hospitalar é recomendado numa grávida com sistólica ≥170 mmHg ou diastólica ≥110 mmHg — as recomendações classificam esta situação expressamente como uma urgência.
A suspeita de pré-eclâmpsia levanta-se quando à tensão elevada se juntam dores de cabeça, alterações da visão, dor abdominal ou análises fora dos valores — sobretudo plaquetas baixas e função hepática comprometida. A pré-eclâmpsia com critérios de gravidade e a eclâmpsia constam da lista de emergências hipertensivas.
Fica registado, porque muda tudo: as grávidas estão fora do âmbito da Norma DGS 001/2026. A tensão na gravidez tem orientações dedicadas e é seguida na consulta de obstetrícia.
O que se arrisca quando se ignora um valor de grau 3
Arrisca-se aquilo que a hipertensão faz em silêncio, acelerado. A análise do Prospective Studies Collaboration publicada em The Lancet em 2002, citada pela norma portuguesa, mostra o seguinte: dos 40 aos 69 anos, cada 20 mmHg adicionais na sistólica — ou 10 mmHg adicionais na diastólica — duplicam a mortalidade por doença isquémica cardíaca e por acidente vascular cerebral.
O peso da hipertensão nos dois eventos que mais assustam está quantificado nos estudos INTERHEART e INTERSTROKE, também citados na norma: o risco populacional atribuível à tensão alta chega a 34,6 % no caso do AVC e fica em 17,9 % no caso do enfarte do miocárdio.
Em Portugal, os números de mortalidade que a norma reproduz do Instituto Nacional de Estatística referem 9 613 mortes por doenças cérebro-vasculares e 6 683 por doença isquémica cardíaca em 2021.
Há ainda o caso extremo. A hipertensão maligna — grau 3 com alterações do fundo do olho, microangiopatia, coagulação intravascular disseminada, encefalopatia em cerca de 15 % dos casos, insuficiência cardíaca e deterioração aguda da função renal — tem, nas palavras das recomendações da SPC, um prognóstico muito mau quando não é tratada. Tratada, deixa de o ter. É toda a diferença que uma chamada faz.
O que este texto faz e o que não faz
Este texto reúne os critérios oficiais portugueses para distinguir uma urgência de uma emergência hipertensiva, as manifestações que obrigam a telefonar para o 112 e o que se faz depois no hospital. Serve para decidir para onde ir, e com que pressa.
Não serve para tratar nada. Aqui não há doses, não há nomes de comprimidos a tomar em casa, não há forma de saber à distância se aquela dor de cabeça é a do costume ou a que interessa. Isso exige exame, análises e alguém à frente da pessoa.
Se está a ler isto com um valor alto no aparelho e um sintoma da lista acima, feche a página e ligue 112. Se está a ler por antecipação, para saber o que fazer quando acontecer, era exatamente esse o objetivo.
Porque não falamos aqui de chás, suplementos nem remédios caseiros
Porque numa subida aguda de tensão isso é perigoso, e não por excesso de prudência editorial. Quem procura «o que tomar» numa crise está a atrasar a única coisa que conta nesse momento — perceber se há um órgão a ser lesado — e nenhum produto de venda livre altera essa avaliação. Nenhuma das duas fontes que esta página usa prevê seja o que for tomado por iniciativa própria em valores de grau 3.
Esta é, aliás, a única página deste site sem qualquer ligação a produtos. As Recomendações de Bolso da SPC incluem uma tabela de substâncias que podem aumentar a pressão arterial, e nela constam produtos à base de plantas de utilização corrente, entre os quais o alcaçuz e a efedrina (ma huang). Ou seja, «natural» não é sequer sinónimo de neutro para a tensão.
Sobre o que a evidência mostra fora do contexto de urgência — dieta, exercício, medicação e suplementos, com números e com fontes — o ponto de partida é o panorama geral da tensão alta.
Fontes utilizadas
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 001/2026, de 04/03/2026 — Abordagem diagnóstica e terapêutica da pessoa com hipertensão arterial (definição de emergência hipertensiva, regra dos ≥180/100 mmHg, prazos de reavaliação, procedimento de medição). dgs.pt
- Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Recomendações de Bolso de 2018 da ESC para o tratamento da hipertensão arterial, versão portuguesa — secção 7 (emergências e urgência hipertensivas), secção 8 (gravidez), Tabelas 5, 24, 25 e 26. spc.pt
- Unidade Local de Saúde do Alto Ave, Ministério da Saúde. Informação ao doente: hipertensão arterial (DOC.009.DSL, janeiro de 2019) — variação da tensão com esforço e stress, critério das três avaliações seriadas. ulsaave.min-saude.pt
- Prospective Studies Collaboration. The Lancet, 2002 — duplicação do risco de mortalidade cardiovascular por cada 20/10 mmHg, citado na Norma DGS 001/2026. dgs.pt
- Estudos INTERHEART e INTERSTROKE — risco populacional atribuído à hipertensão (17,9 % para enfarte do miocárdio, 34,6 % para AVC), citados na Norma DGS 001/2026. dgs.pt
- Instituto Nacional de Estatística, dados de 2021 sobre mortalidade cérebro-cardiovascular em Portugal, reproduzidos na Norma DGS 001/2026. dgs.pt
- Serviço Nacional de Saúde. Linhas de atendimento gerais e SNS 24 — triagem e encaminhamento (número da Linha SNS 24: 808 24 24 24). sns.gov.pt
- Direção-Geral da Saúde. Informação n.º 009/2014, de 29/12/2014 — Processo Assistencial Integrado do Risco Cardiovascular no Adulto, Anexo 13 («Urgência e Emergência Hipertensivas»): contraindicação da nifedipina sublingual, captopril sublingual não recomendado e intervalo mínimo entre doses, ausência de vantagem na descida rápida da tensão, redução gradual em 24-48 horas na urgência. dgs.pt
Perguntas frequentes
A partir de que valores é crise hipertensiva?
A partir de que valores é crise hipertensiva?
A partir de grau 3: sistólica ≥180 mmHg e/ou diastólica ≥110 mmHg, segundo a Tabela 5 das Recomendações de Bolso da SPC. A Norma DGS 001/2026 usa ≥180/110 mmHg na presença de disfunção aguda de um órgão-alvo para definir emergência hipertensiva. O valor de 180/120 mmHg que circula em muitos sites em português vem das recomendações norte-americanas, não das portuguesas.
Qual é a diferença entre urgência e emergência hipertensiva?
Qual é a diferença entre urgência e emergência hipertensiva?
A presença de lesão aguda de órgão. Na emergência hipertensiva há tensão muito elevada e disfunção aguda de um órgão-alvo a decorrer, o que obriga a serviço de urgência hospitalar e habitualmente a terapêutica intravenosa. Na urgência hipertensiva os valores são igualmente altos, mas sem evidência clínica dessa lesão: raramente é preciso internamento e a redução faz-se com medicação oral, seguida de reavaliação rápida em ambulatório.
Uma crise hipertensiva pode matar?
Uma crise hipertensiva pode matar?
Pode, e é por isso que a distinção existe. As emergências hipertensivas incluem quadros como a disseção aguda da aorta, a isquemia aguda do miocárdio e a insuficiência cardíaca aguda. A hipertensão maligna, segundo as recomendações da SPC, tem prognóstico muito mau se não for tratada. Tratada em tempo útil, o cenário é outro — o que torna o atraso na decisão o principal fator evitável.
O que fazer numa crise hipertensiva em casa?
O que fazer numa crise hipertensiva em casa?
Se houver dor no peito, falta de ar, défice neurológico, cefaleia intensa ou alteração súbita da visão: ligar 112. Sem esses sinais: repousar cinco minutos sentado, repetir a medição com o protocolo oficial e, se o valor confirmado for ≥180/100 mmHg, contactar um serviço de saúde no próprio dia para que a emergência seja formalmente excluída.
Posso tomar um comprimido debaixo da língua para baixar a tensão?
Posso tomar um comprimido debaixo da língua para baixar a tensão?
Com nifedipina, não: a DGS classifica a nifedipina sublingual como contraindicada, na Informação n.º 009/2014, porque provoca uma descida de tensão que não é previsível nem controlável. Com captopril, o mesmo documento diz que a via sublingual não é recomendada e que a dose não deve ser repetida em menos de duas horas. Nas urgências hipertensivas o que está descrito é medicação oral segundo o algoritmo de tratamento, decidida em avaliação clínica; nas emergências, tratamento intravenoso em meio hospitalar.
Porque é que baixar a tensão depressa é má ideia?
Porque é que baixar a tensão depressa é má ideia?
Porque a velocidade da descida é, por si só, um risco. A Informação n.º 009/2014 da DGS escreve que não há vantagem na descida rápida da tensão arterial e que esta pode até ser prejudicial. Na urgência hipertensiva, sem lesão aguda de órgão, o alvo é uma redução gradual ao longo de 24 a 48 horas com medicação oral. Mesmo na emergência tratada no hospital, a redução da pressão arterial média nas primeiras horas fica pelos 20-25%.
A ansiedade provoca uma crise hipertensiva?
A ansiedade provoca uma crise hipertensiva?
A ansiedade sobe a tensão no momento, e a informação ao doente do SNS diz expressamente que a tensão arterial varia com o stress e com o esforço físico sem que isso signifique hipertensão. Uma leitura feita em pânico mede sobretudo o pânico. O que continua a valer é o que a medição com protocolo mostra e, acima de tudo, a presença ou ausência de sinais de alarme.
Tenho 180/100 mmHg e não sinto nada. É grave?
Tenho 180/100 mmHg e não sinto nada. É grave?
É um valor com regra própria. A Norma DGS 001/2026 determina que uma tensão ≥180/100 mmHg, mesmo sem queixas, seja reconfirmada com novas leituras dentro da mesma avaliação clínica e que aí se afaste a hipótese de emergência hipertensiva. Não é motivo para pânico nem para esperar pela próxima consulta de rotina: é motivo para contacto com um serviço de saúde no próprio dia.
Tensão alta: quando é que se vai mesmo ao hospital?
Tensão alta: quando é que se vai mesmo ao hospital?
Dor ou aperto no peito, falta de ar em repouso, cefaleia súbita e muito intensa, visão que muda de repente, perda de força ou dormência num lado do corpo, fala arrastada, confusão nova, convulsão ou perda de consciência. Com estes sinais liga-se 112 sem repetir a medição.
Quanto tempo dura uma crise hipertensiva?
Quanto tempo dura uma crise hipertensiva?
Os documentos portugueses consultados não fixam uma duração — definem alvos de redução e tempos de reavaliação. Numa emergência hospitalar, a descida é planeada por horas e é deliberadamente parcial: cerca de 20-25 % da pressão arterial média nas primeiras horas na hipertensão maligna. Numa urgência hipertensiva sem lesão de órgão, o que se estabelece é uma reavaliação rápida em ambulatório.
Que valores são crise hipertensiva na gravidez?
Que valores são crise hipertensiva na gravidez?
Na gravidez os limiares são mais baixos. Considera-se hipertensão grave a partir de ≥160/110 mmHg e recomenda-se internamento hospitalar com sistólica ≥170 mmHg ou diastólica ≥110 mmHg, situação classificada como urgência nas Recomendações de Bolso da SPC. Numa grávida com tensão elevada, dores de cabeça, alterações da visão ou dor abdominal apontam para pré-eclâmpsia e exigem avaliação sem demora.
O que é uma pseudocrise hipertensiva?
O que é uma pseudocrise hipertensiva?
É um termo usado sobretudo na literatura brasileira para descrever valores muito elevados desencadeados por dor, ansiedade ou pânico, sem lesão de órgão, que cedem quando a causa é resolvida. A nomenclatura portuguesa e europeia não o utiliza: separa urgência de emergência hipertensiva pela existência ou não de disfunção aguda de órgão-alvo. A pergunta prática é a mesma nas duas terminologias.